A Voz do Indígena

Meu Nome é Josué Pereira da Silva, mais conhecido por Zuca. Sou cacique da etnia Kambiwá e tentarei, em poucas palavras, relatar quem somos e quais são nossas lutas.

Meu Nome é Josué Pereira da Silva, mais conhecido por Zuca. Sou cacique da etnia Kambiwá e tentarei, em poucas palavras, relatar quem somos e quais são nossas lutas.

Kambiwá significa: Retorno à Serra Negra. Somos remanescentes dos índios que no passado foram rechaçados da Serra Negra onde viviam. Hoje, ela é uma Reserva Ecológica administrada pelo Instituto Chico Mendes e temos lutado para recuperar, pelo menos o direito de entrar livremente nela, pois o nosso acesso está restrito apenas ao período do ritual do Ouricuri,¹ que é feito pelo povo Pipipã.

A Serra Negra é muito importante para nós; lá viveram e morreram muitos dos nossos antepassados. Ela é a nossa mãe e precisa de mais cuidados; boa parte da mata ainda é nativa e é lá que nos sentimos confortáveis, pois acreditamos que nossos espíritos e a nossa força espiritual estão lá.

Desde 1998 nós não realizamos mais o Ouricuri, mas ele não deixou de fazer parte da nossa religião; mas vivemos um dilema: praticamos o catolicismo, mas também temos a religião indígena e nela nós dançamos o toré e o praiá. O toré é aberto para todas as pessoas. No praiá há restrições: em espaços aonde o pessoal “praiás” ² se concentra só é permitido à presença de homens a partir de 14 anos. Lá, mulher não entra de jeito nenhum. Podem apenas cozinhar e participar da dança quando os folguedos estão no terreiro, mais nada!

Algo que nos preocupa é que os jovens não têm mais interesse de participar dos rituais e aos poucos a religião vai morrendo, assim como morreu parte da nossa religião sagrada. O toré não é mais como antes. Nem o praiá. Assim como perdemos a língua materna, tememos perder a religião.

Outro problema com os jovens é o alcoolismo e eu, como cacique e como pai, tenho me preocupado muito, pois precisamos do apoio de profissionais para lidar com esta situação, porque há jovens que nem se interessam pelo trabalho. Eu me preocupo ainda mais com a possibilidade da entrada e uso de outras drogas, piores que o álcool. Em anos sem chuvas, como o que passou e este agora, as pessoas ficam desocupadas e os jovens podem pegar um caminho mais fácil, “errado”, mesmo com a orientação dos pais.

Dependemos exclusivamente da agricultura que é explorada na época das chuvas. A água potável é de poço artesiano, mas não é suficiente para a agricultura irrigada. Temos uma esperança: — A Transposição do Rio São Francisco, pois nossa área está dentro dos limites de impacto e há uma reivindicação para sermos beneficiados com um canal que abasteceria a nossa comunidade, isto facilitaria a nossa produção, garantindo uma sobrevivência mais digna ao nosso povo. Dependemos apenas da sensibilidade e vontade política dos governos para que este projeto seja finalizado. Caso contrário, continuaremos sofrendo as agruras da seca!

 

¹Ouricuri – Hoje são apenas alguns dias, mas no passado eram 90 dias de rituais na Serra Negra.

²Praiás – São “Encantados”. Espíritos dos antepassados, presentes nas roupas de palha usadas pelos “moços” do praiá.

Depoimento do cacique da Etnia Kambiwá sobre pontos relevantes para seu povo passado oralmente ao missionário Santo Celegatti, que redigiu o texto. O mesmo foi lido pelo cacique e autorizado para publicação no dia 07/02/2013 .