Biografia de Assis Militão

No dia 04 de outubro de 1934, na cidade de Palestina (SP) nascia, na família de Francisco e Adélia, um menino que recebeu o nome de Assis, o segundo dos quatro filhos.

A sua infância foi de sofrimento porque, além da pobreza, seus pais tinham sérios problemas de relacionamento. O pai não era salvo e sua mãe trabalhava muito para dar o mínimo aos filhos. Apesar do seu sofrer, todos os domingos ela levava os filhos à igreja. Atingindo a adolescência Assis conseguiu um bom emprego nas Casas Pernambucanas, e ganhando dinheiro passou a experimentar os prazeres do mundo. Gastava tudo o que recebia, mas no seu coração restava um temor a Deus. 

Nessa época o seu pai já era salvo e a vida no lar mudou para melhor. Muitas vezes desejou entrar na igreja durante os cultos, mas não tinha condições porque depois de fechar a loja, embriagava-se e sentia-se indigno de estar ali. Aos 22 anos, estando sóbrio, assistiu a uma reunião de oração e no final seu primo Henrique Hébeler pediu que ninguém se esquecesse das reuniões de oração que aconteciam às 6h30 da manhã todos os dias. Assis, desse dia em diante, passou por uma mudança radical a tal ponto de participar de todos os trabalhos da igreja. Ainda queria mais: dedicar-se sem reserva de domínio e fazer a obra do Senhor entre os índios. Orava chorando e pedindo que o Senhor o aceitasse por Suas misericórdias.

Certo dia uma colega, Diva Bueno, entregou-lhe um folheto do Instituto Bíblico Peniel. Foi a resposta de Deus para ele e, em pouco tempo, lá estava se preparando para ir onde Deus quisesse. Em janeiro de 1959 iniciou o seu treinamento e em 1962, ao término do curso casou-se com Maria Eli, companheira que Deus escolheu para, ao seu lado, servir o Senhor onde Ele mandar. Permitam incluir-me nas experiências que passamos juntos daqui para frente, sendo que fiz parte desta trajetória. Aproximando o dia de partir para a tribo, sem a mínima condição financeira, o sonho se distanciava. Não havia promessa de sustento fixo e era, para nós, uma oportunidade para Deus operar. E aconteceu. Ele usou colegas missionários para levar-nos ao lugar desejado, Guajará-Mirim, no primeiro dia de janeiro de 1963 para trabalhar com o povo Pacaas Novos.

Tempos difíceis nos aguardavam: muitas malárias, a perda do nenê, aprendizagem da língua, cuidar da saúde dos índios e tudo isso com pouco conhecimento do idioma. E, por falta de mais obreiros, não era possível a atuação de dois casais numa aldeia. Todavia Deus confirmava no nosso coração que era ali o lugar.  Eu engravidei, mas nosso bebê não sobreviveu por causa de muitas malárias e, ao perder, fiquei tão fraca que só me levantei após uma semana. Assis, para me agradar, fez um bolo e sem saber que deveria esperar o tempo certo, retirou-o do forno e, entusiasmado com o sucesso, o levou para eu apreciar… Logo ele viu um bolo que jamais voltaria a crescer. Foi a sua primeira decepção na cozinha. Era a segunda vez que estávamos numa aldeia e a mais distante de todas.

O colega nos deixou e lá ficamos sem saber o que iria acontecer, a não ser que Deus estava conosco. No retorno esse colega quase morreu com uma crise de malária e o índio, que viajava com ele foi forçado a aplicar-lhe uma injeção. Depois disso, Assis caiu com a sua primeira malária e aí Deus teve que enxugar minhas lágrimas; vendo-o no fundo da rede o meu sofrimento aumentava, ainda mais sem conhecer quase nada da língua indígena. Sentia falta de alguém com quem pudesse compartilhar minha dor, falasse a minha língua e orasse por nós.

Numa tardezinha, Assis desejou tomar um chá de erva cidreira que ele havia visto logo que chegamos. Eu não sabia onde encontrar, e ele me pediu que fosse ao encontro dos índios e quem sabe poderiam me ajudar.  Na minha comunicação deficiente nada consegui e retornei triste porque, embora tenha usado todos os sinônimos que conhecia,  ninguém me entendeu. Meu marido suplicou que continuasse insistindo. Fui de novo, em vão, mas o caso se transformou num “zum zum zum” para se saber o que eu queria. A noite chegou e sentia o sofrer do meu querido. Ele tinha certeza que se levantaria tomando esse chá.  Horas depois, avistei uma fileira de índios com sua luz à base de resina, chegando à nossa casa trazendo umas folhas da “íriva xanta” (erva santa ).

Deus usou uma das mulheres, que tendo estado num seringal, recordou-se de ter visto o maravilhoso chá. Foi tudo o que Deus preparou para levantar Seu servo.

Alguém pode duvidar que erva cidreira sirva para cortar uma crise de malária, porém  o Senhor usa o que Ele quer e havia motivos de sobra para agradecer  a Ele e dizer aos queridos índios que estávamos alegres e era tudo o que podíamos falar em sua língua.

Com o passar dos 11 anos, e podendo dominar um tanto da língua, Assis pode rascunhar a tradução de 1 Timóteo.  A lingüista retornou das férias e recebeu o rascunho como uma ajuda na tradução desse livro. Contra os seus planos, em 1975, Assis e eu fomos exercer outro ministério no Instituto Missionário Shekinah-MS  preparando novos missionários. Foi nessa época que, após 13 anos de casados, Deus, respondendo às orações de uma índia, nossa querida Rosa, presenteou-nos com uma bênção especial. Nascia Gláucia, a nossa única filha. Rosa ainda vive e faz parte da história da nossa família e guarda com carinho uma fotografia dela. Testemunhamos isso quando lá estivemos em 2007.

Por força maior, em 1980, foi-nos solicitada a mudança para Goiás a fim de auxiliar o presidente da Missão, Rinaldo de Mattos, que pouco tempo depois deixou o cargo. Assis assumiu o seu lugar e atuou durante 15 anos e meio, residindo na cidade de Anápolis. Nesse tempo deu uma assistência como pastor de uma igreja durante 13 anos.

Em 1998, nova mudança e agora para S. Paulo como promotores de missões. Deus tem dado oportunidades para falar nas igrejas desafiando os crentes a fazerem parte de missões. Assis nunca perde o entusiasmo e não se cala quando se trata de falar de Jesus e Sua seara.

O passado e o presente com sua alegria, lutas, frustrações, não apagaram o amor pelos índios e desejo de estar com eles. Cada oportunidade de rever os irmãos indígenas e abraçá-los confirma que valeu a pena ter servido a Deus ali e faria tudo de novo, se fosse possível. Servir o Mestre, para Assis, é o maior dos investimentos nesta vida.

Maria Eli de Oliveira e Silva, Missionária e esposa do biografado