Biografia de Hilda Dias-Missionária entre os Karajá

Sou filha de mulher pobre em bairro da periferia onde fiquei por apenas três anos, pois fui para a casa de uma senhora que fazia evangelismo nas favelas. 

A Paz em nome do Senhor Jesus. Para a glória de Deus narro o que Ele fez por mim.

Em 27 de outubro de 1956 nasci no Rio de Janeiro, Brasil. Sou filha de mulher pobre em bairro da periferia onde fiquei por apenas três anos, pois fui para a casa de uma senhora que fazia evangelismo nas favelas. Essa serva do Senhor levou-me em seus evangelismos isto fez com que logo percebesse o amor de Deus e ainda criança me entregasse ao serviço missionário. A família onde fui morar tinha muitos conflitos, por isso me sentia perdida e por vezes fui agredida com palavras e ações. Eu não entendia a razão da dureza com que me tratavam, nem mesmo entendia o porquê de ser filha de mulher solteira com filhos. Sentia. As palavras de cobrança de que não deveria ser como minha mãe me fazia sofrer. E eu a via poucas vezes e a rejeitei em meu coração. Não queria ser como aquela pessoa de quem tanto falavam mal. Minha mãe também tinha uns distúrbios mentais e isso aumentava a minha rejeição por ela. Não me sentia bem na presença dela, nem na família onde eu estava.

Era constante sentir um aperto em meu peito, uma grande insatisfação na vida, pois sofri muito com a discriminação e indiferença das pessoas, até dos próprios crentes da igreja, pois não era filha legítima. Não me sentia amparada nem ligada a ninguém apenas rejeitada pelos que me rodeavam. Mas a palavra de Deus que ouvia na igreja, e nos cultos, me dava alívio e confiança. Sentia que em Jesus eu tinha alguém amoroso que saiu de sua casa e veio ao meu encontro. Tornou-se criança como eu e me amava. Só que não tinha Jesus em minha casa. Na hora dos conflitos não o percebia ali. As inúmeras vezes que fui à igreja, a palavra me dava forças. O pastor que me batizou era como um anjo de Deus para mim. Tive a oportunidade de morar na casa dele. Mas não escapei dos conflitos, pois sendo ele de cor escura e a esposa de cor clara, as filhas não me aceitavam por eu ser como a mãe delas. Penso que não só isto impediu de ali ficar, como também minha mãe adotiva parece ter apenas me emprestado, devido suas constantes visitas e criticas a família. Com toda aquela adversidade optei sair e voltar para a casa dos pais que cuidavam de mim.

E por ser tão difícil viver em constante pressão e controle, decidi falar com minha mãe biológica se poderia ir morar com ela, isto foi interpretado que eu estaria tramando fugir de casa. Pareceu rebeldia. Fui ameaçada ser entregue a instituição de menores. Todavia, a graça de Deus estava ali impedindo medidas drásticas. Nosso Senhor sabia da minha sinceridade e desejo em servi-lo, pois mesmo em meio às circunstâncias eu continuava nas atividades da igreja, participando intensivamente das programações e desenvolvendo-me no evangelismo.

Aos treze anos, uma missionária comentou sobre a necessidade de ter uma menina para ajudá-la nas tarefas domésticas e minha mãe adotiva propôs que eu fosse. Eu disse sim rapidamente, era tudo o que queria evangelizar e sair daquela casa. Fui então para o extremo do país. O lugar era precário. Era época da seca no estado do Maranhão. Caminhões de pessoas deixavam o lugar em esperança de melhoria de vida e menina vindo de uma grande metrópole.

Passei fome, fui esquecida ali pela missionária itinerante que ficava meses fora e eu aos cuidados de uma família que mal tinha o que comer. Trabalhei nas tarefas domésticas, puxei água de poço, lavei roupa no córrego, entrava no chiqueiro para alimentar os porcos, os bichos de pé não me deixavam em paz. Um dia quando fui lavar roupa no açude (lugar onde a água da chuva fica acumulada), onde algumas vezes não é raso e esse não era, derrapei do tronco onde me amparava caindo na água e quando consegui sair vi uma aranha enorme (caranguejeira) em meu ombro. De todos os perigos Deus me guardou. Recordo-me com alegria, as tardes que ia de casa em casa convidando crianças para ouvir histórias bíblicas que eu tinha aprendido na E. B.F. (Escola Biblica de Férias). A missionária não me permitia usar suas figuras bíblicas e assim eu desenhava nas folhas de caderno as lições. Claro que os desenhos infantis não eram grande coisa, mas mesmo assim as crianças retornavam e enchiam aquela igreja que era uma casa de estuque coberta de palha.

As dificuldades eram muitas, as pessoas riam. Não sei o que era tão engraçado. Talvez por não ter habilidade com a lata de 5 litros na cabeça ou conseguir subir no burrico sem prender o pé nos jacas. Acho que esse jeito maranhense não era minha especialidade, mas o sotaque deles adquiri com facilidade. Meu tempo ali foi curto, após nove meses adoeci gravemente do pulmão.

A missionária retornou de suas viagens e fomos para o Piauí onde na semana do Natal fui internada no hospital. Deus me livrou de um médico que constatou tumores no meu ventre e marcara a operação sem a presença da missionária que fora verificar as passagens para sairmos e passar telegrama sobre minha situação para o Rio de Janeiro.

Senti medo, dores, solidão. Deus usou uma enfermeira muito carinhosa que me consolava. Nunca mais a vi. Foi outro anjo usado por Deus.

Voltei ao Rio de Janeiro na manhã de 11 de janeiro de 1971. Um dos dias mais tristes para mim. Retornar à casa onde não me sentia bem acolhida. Meu pai adotivo me olhava maravilhado de eu estar viva e ao mesmo tempo recriminava a minha ida aquele lugar que quase causara a minha morte.

No retorno para casa me senti pior, pois na urgência da viagem somente a roupa do corpo e o registro de nascimento veio comigo. Tudo o que tinha, ficara no Maranhão, meus documentos escolares, meus desenhos, as poucas coisas pessoais que para mim tinham valor nunca mais vi. Inclusive as pessoas que conheci. Outro fator que cooperou para a tristeza foi ter tido negado o direito de estudar nas escolas do estado do Rio de Janeiro sobre a alegação de que eu era repetente, e não tinha documentos para provar que estudara, pois naquela época não aceitavam alunos vindo do interior matricular-se conforme a série. Sempre matriculavam alunos vindo do interior para as séries anteriores (eram considerados alunos fracos sem conteúdo suficiente), sem chance de defesa o que foi provado após vários apelos do meu pai adotivo. Isso ocasionou em discórdia na casa, sobre a minha ida ao Maranhão. A atitude que  minha mãe adotiva tomara sem consultar ninguém foi recriminada pelo meu pai e outras pessoas. Assim fiquei quatro anos sem direito à educação pública, pois meu pai recusou ajudar revoltado com a situação culpando a esposa da loucura de ter me enviado para um lugar de extrema vulnerabilidade.

Durante esse período fui noiva de um bom rapaz. Ele era honesto, porém descrente, e hoje reconheço a atuação de Deus usando mais uma vez o controle da minha mãe adotiva. Aos dezenove anos finalmente consegui matricular em um supletivo e aos vinte anos ouvi sobre o Instituto Bíblico Peniel. Eu desejava ser missionária, mas os seminários no Rio de Janeiro não me aceitaram apenas com o ginasial (ensino fundamental).

Minha mãe quis conhecer Peniel, no estado de Minas Gerais, e disse que se ela gostasse do ambiente eu poderia estudar ali. Naquela época eu não orava pedindo a direção de Deus, pois para mim quem decidia tudo a meu respeito era aquela minha mãe. E que bom que a decisão dela é a razão de eu estar escrevendo esse testemunho.

Estudei em Peniel. Conheci outra pessoa que se tornou meu noivo. Contando mais uma vez com a intervenção do Senhor, saí daquele noivado mais convicta que Ele me guiava à sua vontade. Eu iria segui-lo sem reservas e se tivesse alguém para ser meu esposo Ele o colocaria mais a frente. Decidi não mais pensar em casamento, apenas na obra de evangelização. Eu não desejava trabalhar entre os índios sentia medo e insegurança, mas se esse era o plano do Senhor O seguiria.

Com dois meses de chegada na aldeia, a primeira experiência, a tentativa de agressão de um indígena contra mim e isso sem motivo aparente. Ninguém soube por que. A minha fé foi afetada, minha confiança naufragou. Eu pensava que iria ter força na luta, mas não tive coragem. Parecia ser simples trabalhar para Deus, mas a fé nos abandona nos momentos mais difíceis, pensava. Decepcionei comigo mesmo.  Mais uma vez Deus usou um líder na Missão Novas Tribos para me mostrar que é natural ter medo, que eu não precisava me envergonhar disso e sim olhar para Cristo o Autor e consumador da fé.

Demorou meses, até que outras lutas se formaram e as vitórias para a Glória do Senhor.

Também pude contar com as minhas duas amadas colegas Wanda Elizabeth Aren e Almerinda dos Santos, que formaram comigo um cordão de três dobras.  “ E, se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; e o cordão de três dobras não se quebra tão depressa.” Ecle. 4.12

E estou entre os índios karaja a vinte sete anos podendo recitar que  “a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador.” Tito 1.3