Biografia de Sérgio Scripnic

Ouvi muitos desafios missionários e as orações do povo de Deus me estimularam a obedecer ao chamado.

 Nasci em 26 de abril de 1931 em Olímpia – SP. Nesse tempo meus pais ouviram o Evangelho por intermédio de obreiros que também haviam imigrado da União Soviética no ano de 1926. Minha mãe creu no Evangelho e meu pai o rejeitou. Ele chegou a espancar a minha mãe por causa da sua fidelidade à Palavra de Deus. Minha mãe me ensinou a ler o Novo Testamento na língua russa e orou pela conversão do meu pai durante 46 anos. Ela foi um exemplo de vida cristã, por sua paciência, ponderação, amor e oração.

Aos quinze anos eu me afastei da igreja por me sentir discriminado por ter participado de um jogo de futebol. A igreja da qual minha mãe era membro tinha muitas proibições, especialmente para as mulheres.

Cada vez mais longe de Deus eu perdi a paz interior. Perdi também o sono por causa da expectativa do inferno e da certeza da minha perdição. Foram vários dias de angústia e culpa até que em uma noite de março de 1954 eu caí de joelhos ao lado da minha cama e clamei: “Será que há esperança para um pecador perdido?” Então eu entendi o que o Senhor Jesus havia feito por mim. Eu me entreguei a Ele naquela noite. No domingo seguinte acompanhei minha mãe até a sua igreja, onde fui batizado duas semanas depois.

Tornei-me ativo na igreja participando da orquestra de sopro, do coral, sendo professor da escola dominical, líder dos juniores e pregador ao ar livre. Contudo eu sentia que o que estava fazendo era apenas um dever cristão.

Paulo Jancitsky era membro da mesma igreja onde eu fui batizado e morava próximo a minha casa. Ele contribuiu para minha conversão e foi um exemplo para mim. Somos amigos desde a infância.

Uma vez ouvi um professor da escola dominical dizer: “Esta escola é a única onde os alunos estudam sem se preocupar com as provas de fim de ano e por isso nós estamos sempre no primeiro ano”. Estas palavras me causaram um grande impacto. Por esse tempo passei a freqüentar os cultos de quarta – feira da Igreja Batista da Vila Mariana. Após o culto, o Pr Rubens Lopes dava aula para os professores da EBD. Lá eu aprendi que precisava de mais conhecimento para ser melhor usado por Deus.

Ouvi muitos desafios missionários e as orações do povo de Deus me estimularam a obedecer ao chamado.

Em agosto de 1956 comecei o curso no Instituto Bíblico Peniel. Em dezembro do ano seguinte fui convidado para fazer estágio na aldeia dos kaingangs, em Nonoai – RS. Eu deveria substituir o missionário Alton Cothron que sairia de férias. Dois meses depois da minha chegada em Nonoai ele viajou com sua família.

Dois dias por semana eu alfabetizava e evangelizava na aldeia, e dois dias evangelizava na cidade. Todo trabalho era feito em português. Também cuidava da casa, da horta e dos animais.

Voltei para Jacutinga em outubro de 1958 para terminar o curso em Peniel. Lá eu aprendi muito e tive oportunidade de servir ao Senhor: organizei um coral, fui motorista e administrador.

Uma vez nós os alunos estávamos cavando um poço. Eu estava dentro do buraco que tinha aproximadamente dez metros de profundidade e dois rapazes fortes estavam lá em cima puxando a terra. Em um momento de descuido a corda enroscou na prancha onde eles estavam apoiados e esta que pesava aproximadamente vinte quilos caiu e enterrou sua extremidade no fundo do poço sem me atingir. Este foi um dos tantos livramentos de Deus.

Conheci Alda no Instituto Bíblico Peniel. Casamos no civil no dia 06 de agosto de 1960, no mesmo dia da formatura do curso bíblico e no dia 20 daquele mês tivemos a cerimônia religiosa.

Em outubro de 1961 eu peguei carona num “comboio de kombis” 0 Km que eram levadas para Recife. Na verdade eu precisei pagar por este transporte, mas bem menos do que  pagaria por uma passagem de ônibus.

Visitei várias tribos do Nordeste estudando a possibilidade de iniciar o trabalho missionário em uma daquelas aldeias. De volta apresentei o relatório da viagem à liderança da Missão. Oramos como família e concluímos que a tribo Pankararu era o local onde deveríamos exercer nosso ministério.

Ficamos quinze dias em Recife antes de viajarmos para Tacaratu, onde vivem os pankararus. Em Recife, um médico crente, que era também Deputado Estadual, chamado José Inaldo Lima, me deu uma carta de recomendação. Esta carta com timbre da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco fez uma grande diferença. Assim que chegamos na cidade eu apresentei a carta ao Delegado de Polícia. Eu tinha outra para apresentar ao Juiz de Direito.

Em Tacaratu uma caravana de evangélicos havia sido apedrejada pouco antes da nossa chegada. Naquele tempo a cidade tinha 12.800 habitantes e não havia nenhum crente ali. O povo havia sido ensinado que crente era “bode” e não deveria se criar nas terras de Nossa Senhora da Saúde.

Aluguei uma casa, mas antes de receber as chaves fomos para uma pensão com direito a todas as estrelas do céu. Viajei a Arco Verde de carona em um caminhão e Alda  ficou com nosso filho Samuel que tinha oito meses. Durante a minha ausência, alguns da cidade empurraram a porta do quarto e disseram: “Quando o padre chegar vocês vão levar pedradas como levaram os outros protestantes que aqui vieram”. Nunca recebemos as chaves da  casa que eu havia alugado. O delegado mandava quase que diariamente dois soldados passarem em nossa casa para perguntar como as pessoas estavam nos tratando

A oposição era quase insuportável. Esperamos no Senhor que, no devido tempo, acalmou a situação. Conseguimos alugar outra casa. Abrimos a caixa de medicamentos e, no outro dia bem cedo, dezenas de pessoas chegaram para receber o que precisavam para tratar sua saúde. Desta forma iniciamos a evangelização dos pankararus.

Uma das primeiras pessoas que vieram procurar remédios foi a Dona Rosa. Ela trazia agarrado em sua saia um menino de aproximadamente cinco anos chamado Renato. Mais tarde ela creu em Jesus como seu salvador e o menino também. Hoje Renato é missionário. Ele trabalhou muitos anos entre os índios apinajés no Tocantins.

A nossa água era trazida no lombo de um jumento, ou carregada no ombro ou cabeça. Um garoto que carregava água nos serviu por duas ou três vezes. Depois nos disse: “Não posso trazer mais água para a sua casa. A Dona do jumento falou que protestante não bebe água que seu jumento carrega”.

O filho do vizinho estava doente e ele veio pedir socorro. Nós o atendemos e a criança melhorou. Em gratidão o homem foi buscar duas latas de água no ombro para nós.

Em 1980 a liderança da Missão pediu que deixássemos Tacaratu e fôssemos para Paudalho – PE estabelecer o Instituto Bíblico e Missionário Macedônia.

Passamos por dificuldades financeiras depois desta mudança, pois tínhamos quatro filhos. Três deles estudavam em Recife e um em Carpina. A despesa com transporte era alta. Morávamos a cinco quilômetros do ponto do ônibus. Neste mesmo período a igreja que era responsável por 90% do nosso sustento passou por uma crise e deixou de nos ajudar. Contudo o Senhor supriu nossas necessidades e no seu tempo resolveu nossos problemas financeiros.

Estou certo de que Deus me dirigiu passo a passo nestes 46 anos de ministério junto à Missão Novas Tribos do Brasil.

É bem provável que se eu fosse começar de novo estaria mais disposto a deixar Deus me dirigir e a realizar com Ele um trabalho ainda melhor.

Sou muito grato a Deus pela minha esposa e pelos meus filhos Samuel, Sara, Sérgio Paulo e Arely. Sou grato também por meu amigo Paulo Jancitsky, por minha irmã Marúcia e por todos os outros que apoiaram e têm apoiado o nosso ministério com suas orações e ofertas.

Missionário Sérgio Scripnic