Biografia dos Missionários Alton e Ebba Cothron

No mês de outubro de 1951 um grupo de mais de cinqüenta missionários viajou para o Brasil…

Ebba nasceu e se criou na cidade de Muskegon Heights, no Estado de Michigan na América do Norte.  Ela  se converteu com aproximadamente dez anos de idade.  Sua chamada para a obra missionária veio quando era ainda bem jovem. Seus pais gostavam de hospedar missionários em sua casa e foi numa dessas ocasiões que Ebba tomou conhecimento da New Tribes Mission.  Não demorou para ela decidir que queria dedicar sua vida para alcançar as tribos com o Evangelho. No meio do ano de 1949, Ebba deixou seu lar, indo ao Estado da Califórnia para fazer o treinamento missionário, junto com várias outras pessoas, no instituto da New Tribes Mission. O curso era intensivo com a duração de um ano.

Eu nasci e cresci na cidade de Denver, no Estado de Colorado nos Estados Unidos.  Com mais ou menos dez anos de idade eu aceitei Jesus como meu Salvador e fui batizado.  Com quatorze ou quinze anos enquanto participava  de um acampamento de jovens da minha igreja, ouvi um desafio missionário feito por um homem recém chegado da China.  Mais tarde passou um missionário da New Tribes Mission em minha igreja e também fez um forte apelo para candidatos para a obra missionária. Resisti ao chamado por dois ou três anos, mas enfim entreguei a minha vida para Deus usar como Ele queria. Mais oito pessoas da minha igreja atenderam ao chamado na mesma ocasião. No outono de 1949  fui para o instituto da New Tribes Mission na Califórnia. Foi lá que eu e Ebba nos conhecemos.

No mês de outubro de 1951 um grupo de mais de cinqüenta missionários viajou para o Brasil à bordo dum pequeno navio chamado o MV Tribesman. O navio chegou em Belém – PA no dia 06 de novembro de 1951. Os irmãos Carl Taylor e Wayne Deason estavam esperando a chegada desse grupo de novos missionários. Uma casa grande em Icoraçi, próximo a Belém, tinha sido alugada para hospedar este grupo. Os primeiros dias e noites foram  muito engraçados porque todos estavam tentando arrumar seus aposentos, lugar para cozinhar, lugar para dormir, lavar roupa e outras atividades  necessárias para a vida ali em Icoraçi.

Durante a primeira semana todos nós fomos levados à Polícia Federal a fim de sermos registrados e recebermos nossas carteiras de identidade para estrangeiros.  Na próxima semana, eu e mais quatro  missionários solteiros embarcarmos num avião monomotor, da Missão e fomos de Belém até a cidade de Goiânia, Goiás. A viagem levou uma boa parte do dia. Do avião podíamos ver algumas aldeias de índios. Eram aldeias feitas em círculo com caminhos saindo do centro da roda para o círculo onde as suas casas estavam localizadas.

Em Goiânia as três moças solteiras ficaram na casa do irmão Carl Taylor, diretor do campo na época. Alton Cothron e Jack Vaughn, os dois rapazes solteiros, foram para a casa de Clem e Cecília Smith. Clem era um dos pilotos da Missão naquele tempo. O Sr. Carl, logo arranjou meios para todos nós começarmos a aprender a língua portuguesa. As moças, Delores Bleigh, Myrtle Rehn e Ebba Olson, foram levadas para casas de famílias brasileiras onde teriam um bom ambiente e muita oportunidade para aprender português. Jack Vaughn, junto com um colega brasileiro, foi para a cidade de Pontalina no Sul do Estado de Goiás. Seu tempo seria gasto evangelizando e aprendendo falar português. Eu, acompanhado por um outro moço brasileiro chamado Joel, fui para o norte  de Goiás. Nosso destino era a pequena cidade de Rubiataba, mas por algum motivo seguimos por três dias de viagem a cavalo até chegarmos numa pequena cidade chamada Crixás onde fiquei até o mês de julho de 1952.

Crixás era uma cidade sem acesso por estrada de rodagem e sem agência de correio. Não havia médico ou hospital, nem  energia elétrica ou água encanada. Porém havia almas para serem alcançadas pelas Boas Novas do Evangelho. Durante o dia Joel e eu fazíamos visitas, de casa em casa, falando de Jesus. À noite realizávamos cultos de pregação na pequena sala da casa da D. Francisca onde ficamos hospedados. Ela já era crente em Cristo. A primeira pessoa a se converter durante nosso tempo em Crixas foi D. Honória, filha da D. Francisca.  O marido da Honória, Sr. Joaquim Dietz, se converteu mais tarde e com o passar dos anos tornou-se Presbítero na Igreja Presbiteriana em Crixás. Alguns anos depois ele  foi duas vezes prefeito de Crixas. Outras pessoas se converteram também e quando saímos de Crixás, quando deixei aquela cidade era onze  o número de salvos. Deste grupo nasceu a Igreja Presbiteriana de Crixas.  Um dia, em 1952, chegou um casal  com seu filho chamado Daniel, pedindo que eu fizesse uma oração dedicando o menino a Deus. Tomei o bebê em meus braços e orei. Quarenta e cinco anos mais tarde reencontrei Daniel, casado e convertido. Hoje ele é um dos presbíteros na igreja.

Saí  de Crixás para casar com  Ebba Olson. O casamento foi realizado na Primeira Igreja Batista de Goiânia e oficiado pelo Pr. Clayton Templeton.  A recepção foi no quintal da casa do Carlos e Cora Taylor.  Os irmãos Adalberto e Madalena Denelsbeck, que estavam em Goiânia cuidando de problemas de saúde,  nos cederam sua casa em Barra do Garças – MT, para nossa lua de mel.

No ano de 1973, enquanto trabalhávamos no Instituto Bíblico Peniel,  Ebba e eu resolvemos fazer uma viagem até Crixás. Havia se passado vinte um anos desde que eu saíra de lá para casar. Não tínhamos idéia do que encontraríamos. A estrada, embora de terra, de Ceres para Itapaci e depois Crixás era razoavelmente boa. Chegamos sem problemas. Ficamos apenas uma noite em Crixás, mas foi suficiente para rever muitas pessoas conhecidas e irmãos na fé. A convite do pastor da Igreja Presbiteriana, eu preguei no culto da noite. Ao fazer um apelo no final, um homem veio a frente para declarar publicamente sua fé em Jesus como Salvador. Ele veio acompanhado pelo Presbítero Joaquim Dietz. Este novo irmão chama-se Antônio. Mais tarde toda a família dele se converteu e permanecem firmes na fé até hoje. Esses são alguns exemplos daquilo que Deus fez através dos anos por aquela pequena cidade que marcou minha vida e ministério.

No início do ano 1952, logo depois da chegada em Goiânia, dos cinco missionários já mencionados, foi realizada a primeira conferência missionária  do campo. Uma Igreja Cristã Evangélica perto da casa do Sr. Carl Taylor, em Goiânia, foi o local. Entre os participantes desta conferência estava o missionário Abraão Koop que veio de Guajará-Mirim, Rondônia (ainda território). Em poucos dias ele e Delores Bleigh anunciaram seu noivado e no final do ano se casaram. Myrtle Rehn conheceu Keith Wardlaw e mais tarde se casaram. Esses dois casais foram trabalhar entre os índios pacaas novos e yanomamis, respectivamente. Jack Vaughn veio noivo para o Brasil. Sua noiva Joana veio mais tarde e eles se casaram em maio de 1953.

O irmão Floyd Gilbert que viera ao Brasil no mesmo navio conosco ficou doente com Tuberculose dos pulmões enquanto estava em Belém – PA. O médico recomendou que ele voltasse aos Estados Unidos, mas Sr. Floyd não queria e dizia que ele podia se tratar e se curar no Brasil mesmo. O médico recomendou um clima mais seco como o de Goiás e Floyd e família veio para  Goiânia onde permaneceu durante o tempo do seu tratamento. Aproveitando esse tempo ele pesquisou na Biblioteca Municipal sobre a tribo Kaingang no Brasil. Nessa época  ninguém pensava em índios no Sul do país. Floyd me convidou para fazer uma viagem de sondagem com ele nos estados do sul a fim de averiguar a possibilidade de trabalho missionário ali.  Assim, em março de 1953, depois de ter obtido a devida permissão do antigo SPI,  nós dois embarcamos no trem em Ponta Grossa – PR. Viajamos de trem, de ônibus, de carona e a pé durante duas semanas visitando os Postos Indígenas de Xapecozinho, Guarita, Ligeiro e Cacique Doble. Encontramos boa vontade por parte de todos os chefes de posto para que alguém fosse ajudar os índios. Não demorou para Floyd decidir que ele iria trabalhar  no  Posto de Xapecozinho, no Estado de Santa Catarina.  Eu ainda não tinha decidido em que local eu  iria trabalhar. Havíamos passado pela pequena cidade de Nonoai – RS durante a viagem de sondagem  mas não visitamos o Posto Indígena localizado a oito km  da cidade. Em maio voltei a Nonoai acompanhado com o Diretor da New Tribes Mission dos EUA e visitamos o posto. Senti a direção de Deus para mudar-me para Nonoai. Aluguei uma parte duma casa velha na praça  e fui embora com a promessa do dono da casa que ele iria arrumar os vidros quebrados, goteiras no telhado e pintar a casa antes da minha volta dali um mês.  No dia 06 de junho de 1953 Ebba e eu descemos do ônibus num dia frio e chuvoso para começar nossa vida no Rio Grande do Sul.

A casa que eu havia alugado estava a nossa espera, nas mesmas condições que eu havia deixado. Além de uma ou duas malas e uma caixa de madeira grande com coisas pessoais, a nossa mudança consistia-se em um colchão e um fogão de lenha comprados na cidade de Passo Fundo na vinda para Nonoai. Passaram-se algumas semanas antes de adquirirmos  mesa, cadeiras, cama e outras coisas para a casa. Era inverno e fazia muito frio. À noite ficávamos junto ao fogão e depois pulávamos na cama para nos mantermos aquecidos. Embora as condições de vida eram simples, estávamos contentes. Aguardávamos a chegada da nossa primeira filha para o mês de setembro.

Depois de uma semana na qual arrumamos tudo o que foi possível em nossa casa, comecei a sair de casa bem cedo, a pé, para visitar  as casas dos índios. O SPI havia dado permissão para visitar os índios mas não para residir dentro da área indígena. O mesmo acontecia com Sr. Floyd e D. Ida Gilbert em Santa Catarina.  Aos poucos nós ganhamos a confiança dos índios. Evangelizávamos em português e nos esforçávamos para aprender a língua kaingang. Os índios se diziam católicos mas seu catolicismo era misturado com suas próprias crenças. Isso era muito visível na hora do falecimento e enterro de um deles. Eles não moravam em aldeias mas espalhados por toda área que era muito grande. Viviam de  pequenas roças de milho, feijão, trigo e mandioca e criavam algumas galinhas e porcos para seu próprio consumo. Suas casas  eram pequenas, de chão batido. Raramente encontrava-se cadeira, mesa ou cama nas casas. No início, eu fazia todas as visitas à aldeia a pé. Muitas vezes  eu andei de vinte a vinte cinco quilômetros em um dia. Mais tarde comprei uma bicicleta e um cavalo. Nesse tempo Ebba não ia comigo porque estava grávida e depois tinha uma criança pequena para cuidar.

Dentro do possível visitávamos a família Gilbert na sua casa na beira do Rio Xapecozinho na divisa da área dos índios.  Isso ficava dezoito km da cidade de Xanxerê. Floyd, Ida e filhos também nos visitavam em Nonoai. A distância que nos separava não era tanta, mas as dificuldades de horário de ônibus e  travessia do Rio Uruguai faziam com que a viagem até Xanxerê, com criança pequena, fosse penosa. Após um ano na casa alugada, achamos melhor comprar um terreno e construir a nossa própria casa. Floyd fez várias viagens até Nonoai a fim de me ajudar na construção.

Ebba começou a evangelizar um menino que trazia leite para nós. Ele se converteu e mais tarde sua mãe também se converteu. Aos poucos, falando com um e outro, um pequeno grupo de crentes desenvolveu-se em Nonoai.  Depois de alguns anos foi organizada a Igreja Evangélica de Nonoai e um templo para reuniões foi construído.  O irmão Presidente e Tesoureiro da MNTB, Sr. Luiz Monteiro da Cruz,  foi  a Nonoai para a dedicação desse templo no ano 1962.  O trabalho com os índios desenvolveu-se   devagar, mas depois de alguns anos frutos começaram a aparecer. Foi um dia festivo quando, na década de sessenta,  o casal de índios, João Pedro e Maria, e alguns filhos,  foram batizados num riacho perto da sua casa. Depois do batismo fomos até a casa deles onde participamos da Ceia do Senhor.

Em agosto de 1956 o Instituto Evangélico Missionário começou a funcionar.  No próximo ano alguns alunos foram enviados, para fazer estágio junto a algum missionário. Um deles, por nome de Alberto Daragihan, foi para Nonoai passar um tempo conosco. Depois  o irmão Sérgio Scripnic fez seu estágio ali e mais tarde vieram outros.

Missionários Alton e Ebba Cothron