Encontro e Reencontro

Certo dia, quando passava por uma aldeia indígena de onde seguiria para meu campo de trabalho, fui solicitada para cuidar de uma recém-nascida.

Certo dia, quando passava por uma aldeia indígena de onde seguiria para meu campo de trabalho, fui solicitada para cuidar de uma recém-nascida. Logo que entrei na maternidade típica – uma cobertura rústica de palha afastada da casa – vi um lindo nenê no colo da mãe. Fui chegando, assentei-me num toco e comecei o procedimento de limpeza do umbigo. Era um dia de festa na aldeia e havia muitos parentes de outros locais participando. Enquanto estava concentrada no trabalho ouvi a conversa do pai com seus parentes discutindo sobre a criança. A dúvida seria se ela deveria viver ou ser enterrada, já que aparentava ter os antebraços curtos. Para este povo, antigamente, havia uma crença de que não poderia sobreviver um defeituoso. Era apenas a força de uma crença. Considero este povo muito especial.

Quando entendi a situação, comecei a orar em pensamento e pedir socorro do Senhor por aquela criança. Foram minutos de muita tensão, mas de certeza da presença de Deus; afinal Ele havia me levado ali porque tinha um propósito. Pensei, até impulsivamente, em fugir correndo e levá-la comigo, mas sabia que deveria apenas ficar orando. Depois de um tempo o pai me chamou e perguntou: “Enfermeira, você acha que ela tem defeito?” Respondi: “Você sabe que não vou mentir para você, mas não vejo nada. Mas, caso seus braços sejam curtos, isso não a impedirá de fazer roça, trabalhar como uma mulher normal.” Ele então me disse: “Então vou dar o nome.” Na cultura deste povo, no momento em que o bebê recebe um nome do pai não poderá mais ser morto. A partir daquele momento aquela a menina ficou livre para viver. Louvado seja Deus!

Este acontecimento deu-se há 26 anos. No parentesco deste povo, conforme sou adotada entre eles, ela é considerada minha neta. Para resguardá-la vou chamá-la de Mila. Os anos passaram e não mais a encontrei. Sempre perguntava por ela e ouvia que era uma menina bonita e inteligente.

No ano passado (2011) voltamos a trabalhar a uns 14 km de sua antiga aldeia e ali recebemos muitas visitas do seu povo. Perguntei a respeito dela e soube que estava morando bem perto. Um dia meu marido e eu fomos à primeira aldeia encontrar uns amigos. Enquanto eu conversava com as mulheres, chegou uma jovem senhora bonita e me disse: “Você é a esposa do vovô Sirasi?” “Sim!” Respondi. Ela olhou-me alegre e disse: “Eu sou a Mila!” fiquei muito feliz. Dei-lhe um abraço e conversamos um pouco de como Deus a guardou. Ela ficou pensativa e disse: “Eu gosto muito de Deus, tinha um livro dele e lia, levava para todo lado, mas numa viagem de canoa, choveu muito e molhou, ficou estragado. Agora não tenho outro. Você me dá outro?” “Sim”, respondi.

No final da conversa convidei-a para me visitar e ouvir mais sobre Jesus e a Palavra de Deus. Passou-se quase um mês e um dia ela veio com os quatro filhos para ouvir a Palavra de Deus. Foi um dia inteiro de estudo bíblico e meu esposo falou muito sobre Jesus e eu cozinhei para todos. Ela nem parecia piscar de tão interessada no assunto. No final entendeu claramente a razão de Jesus ter ido à cruz e ter ressuscitado. Seu semblante mudou e os olhos brilharam. Ao entardecer ela voltou para sua aldeia muito feliz por ter ouvido a mensagem sobre Jesus, o prometido que Deus enviou. Oremos por Mila e a sua influência com o seu povo.

Missionária Eldna Lima, da APMT (Associação Presbiteriana de Missões Transculturais)