Entrevista com a missionária Bárbara Kern

A missionária Bárbara Kern durante anos trabalhou na aldeia e atualmente continua se dedicando à tradução da Palavra de Deus.

CT – É possível contar para os leitores de Confins da Terra, como você foi chamada a participar da obra missionária?

Na escolinha pública onde frequentava no sul da Califórnia, nos EUA, havia um período de uma hora por semana, quando os alunos eram dispensados da sala de aula para assistir uma classe de estudos bíblicos. Um dia, veio uma missionária que trabalhava entre os índios Navajo. Ela contou sobre aquele povo, e eu fiquei muito comovida com o que ela contava. Desde àquela hora, eu sentia o desejo de ser missionária também. Eu tinha nove anos na época. Ao passar o tempo, quando ouvia de pessoas no mundo afora que nunca ouviram de Jesus, este desejo aumentava mais e mais, até que, quando terminei o segundo grau, com 16 anos, sabia que Deus queria que me preparasse para o campo missionário. Fui então para a escola bíblica.

CT – Como foi definido o campo específico onde deveria trabalhar?

Enquanto fazia o curso de linguística da Missão, orava a respeito do campo onde eu deveria trabalhar. Ora achava que Deus estava me dirigindo para a Venezuela, ora para as Ilhas Filipinas. Mas com o tempo, senti mesmo que Ele estava me dirigindo para o Brasil. Cheguei em março de 1962, com 20 anos de idade. Enquanto estava fazendo o curso de português, ficava orando para que Deus me dirigisse para a tribo que Ele queria. Fui convidada para trabalhar entre os Pacaas Novos, e não demorou muito o Senhor confirmou no meu coração que este era o lugar para mim. Cheguei em Guajará-Mirim, no estado de Rondônia (Território naquela época), em novembro de 1962.

CT – Conte alguma experiência vivida no período de aprendizagem da língua e adaptação à cultura Pacaas Novos.

Na cultura Pacaas Novos, a família é muito importante. A primeira pergunta que fazem a uma pessoa recém-chegada é sobre a família: tem pai? mãe? irmãos e irmãs? filhos e filhas? Fica difícil para alguém novata em uma aldeia se ele não tem algum parente onde possa se encaixar. Foi então uma grande ajuda para mim quando, logo que cheguei na tribo, fui adotada em uma família de vários filhos. Conforme o padrão de parentesco, os filhos do meu “pai” são meus irmãos; as filhas são minhas “irmãs”; sou “mãe” dos filhos das minhas “irmãs”, e elas são “mães” dos meus; sou “tia” dos filhos dos meus “irmãos” e eles são “tios” dos meus. E Manfred é o “cunhado”. Temos até hoje um relacionamento muito bom com esta família.

CT – Como e quando você e Manfred se conheceram e decidiram casar?

Acontece que meus pais, Darris e Mary Brown, também eram missionários da Missão Novas Tribos. Eles eram líderes na escola para jovens americanos em Vianópolis-GO. Eufui visitá-los na época do Encontro Missionário anual em 1965. Havia missionários de vários campos do Setor Leste naquele encontro, inclusive um jovem missionário recém-chegado da Alemanha—Manfred Kern. A conversa era, que ele pretendia se integrar à equipe entre os Gaviões em Rondônia. Nemde longe eu imaginava que algum dia…..  Voltei para a tribo, e um belo dia em janeiro de 1966, lá vem o Manfred Kern para passar alguns meses entre os Pacaas Novos, pois todos da equipe entre os Gaviões eram novos missionários. Eles queriam que o Manfred conhecesse o trabalho entre os Pacaas Novos, para poder ver como fazíamos o trabalho e então transmitir as suas experiências para a equipe entre os Gaviões. Mas é interessante, como Deus tinha outros planos para ele. Dentro de cinco meses Ele confirmou para nós que havíamos achado o nosso outro. Casamos na Califórnia dia 20 de maio de 1967.

CT – Conte alguma coisa a respeito dos seus filhos.

Deus nos abençoou com três filhos: Jonathan, Davi, e Estevão. Todos estudaram na escola para filhos de missionários em Puraquequara, perto de Manaus. Quando terminaram o segundo grau, viajaram para os Estados Unidos, e lá estudaram em escolas bíblicas. Todos tinham o desejo de servir ao Senhor, e damos graças a Deus que estão fazendo isto. Os três são casados. Jonathan e sua família (quatro filhos) moram em Dallas, Texas; ele é Diretor de Marketing de The Seed Company, um afiliado da Wycliffe Bible Translators. Davi e sua família (quatro filhos) são missionários com a Missão no Brasil. Ele é diretor da escola para filhos de missionários em Puraquequara, e ambos são professores lá. Estevão e família (três filhos) também são missionários com a Missão em Moçambique, África.

CT – Em qual ou quais aldeias Pacaas Novos vocês exerceram seu ministério, e quais as suas responsabilidades na equipe?

Nós trabalhamos na aldeia Dr. Tanajura de 1967 até 1993. Em1985, ametade da população de Tanajura (inclusive um bom número dos crentes) se mudou para uma nova aldeia no Rio Sotério, e naquele ano começamos a fazer visitas periódicas de uma a três semanas lá. A maioria dos nossos ajudantes de tradução estava morando no Sotério, por isso resolvemos construir uma casa naquela aldeia, e em fevereiro de 1993, mudamos para lá. Ficamos até 2003. Manfred foi o co-ordenador do trabalho entre os Pacaas Novos; nós também trabalhamos em prol a implantação de igrejas e tradução bíblica.

CT – Você tem se dedicado a traduzir a Palavra de Deus para a língua nativa, quais os livros do Novo Testamento já foram traduzidos?

Graças a Deus, a maior parte do Novo Testamento já está traduzida para a língua dos Pacaas Novos, ainda bem que precisamos revisar alguns livros, e quase tudo precisa ser verificado ainda. Faltam os evangelhos de Marcos e João que estão quase prontos, e o rascunho do evangelho de Lucas ainda está em andamento.

CT – Como é feita a revisão da tradução a fim de verificar o nível de compreensão dos falantes da língua?

A gente faz a exegese e rascunho, com muitos “buracos” e perguntas de como dizer isto ou aquilo, para depois trabalhar junto com os ajudantes nativos. Como nós estamos aqui na Alemanha e os índios estão aí no Brasil, dependemos muito dos nossos colegas na tribo. Manfred e eu também passamos juntos por cada trecho, verificando o conteúdo. Está certo? Incluímos mais do que o texto diz? Ou falta alguma coisa? Quando o manuscrito está pronto, é entregue para alguns leitores nativos, os quais lêem e corrigem ou marcam qualquer coisa que eles acham errada. Os nossos colegas acompanham esta fase de perto, fazendo perguntas e verificando se eles estão entendendo o que estão lendo. Devolvem o manuscrito para nós, e depois de muito vai e vem por e-mail, aprontamos o manuscrito final, que é então retro-traduzido para o português. Isto, porque o nosso consultor que vai verificar a tradução, não fala Pacaas Novos. Então ele precisa saber exatamente como nós traduzimos para o Pacaas Novos.  Como vocês estão vendo, é um processo que leva muito tempo.

CT – Sabemos que você precisou ir para a Alemanha a fim de se submeter a um tratamento dos rins. Como se encontra a sua saúde atualmente?

Eu estou bem. Já faz cinco anos e meio que faço a diálise, e está funcionando muito bem, graças a Deus. Há dias, é verdade, que parece que o “combustível acabou” e sinto muita fraqueza, mas Deus na Sua graça, sempre me dá o que preciso. Dou muitas graças a Ele que posso trabalhar quase normalmente no computador. Já faz quatro anos desde a minha última cirurgia para câncer de mama; espero que depois de mais dois ou três anos, já possa fazer uma cirurgia para transplante de rim.

CT – Qual é a sua visão do trabalho Pacaas Novos, e quais suas perspectivas para o futuro da atuação missionária nesta etnia?

Bom, os nossos alvos pessoais são entregar o Novo Testamento para os nossos queridos irmãos indígenas da etnia Pacaas Novos. A carta aos Romanos já foi verificada pelo consultor e está pronta a ser publicada. Mateus e Efésios estão nas mãos do consultor agora; quem sabe vamos publicar estes três livros juntos. Outros alvos para o futuro próximo são: completar os evangelhos de Marcos, Lucas, e João; revisar Atos, as cartas de João, e também várias cartas de Paulo; e aprontar tudo que falta para a verificação com o consultor.

Quanto ao trabalho em geral, a visão de toda a equipe é, que as igrejas entre os Pacaas Novos cresçam e cheguem ao ponto de funcionar sem presença missionária; que os líderes das igrejas permaneçam fiéis e aprendam mais e mais como ensinar a Palavra de Deus; e que toda a população da etnia Pacaas Novos (cerca de 2.500 pessoas) chegue a conhecer a Jesus.

CT – Quer enviar um recado para os novos missionários ou para os jovens que estão pensando em se dedicar para a obra missionária transcultural?

Se você é recém-chegado no campo missionário, fique firme! Sem dúvida você vai passar por choque cultural, vai encontrar dificuldades, vai achar que está perdendo tempo, mas fique firme. Vale à pena!! Mantenha seus olhos em Jesus. Corra para o conforto da Sua Palavra. Confie nEle. E para você que está pensando em se dedicar á obra missionária, se você já tem este pensamento, sem dúvida foi Deus que o colocou na sua mente, pois o Seu maior desejo é que todos cheguem a conhecer a Jesus. Deus é Todo-Poderoso, mas mesmo assim, Ele precisa de Seus Filhos, de mim e de você, para que todos O conheçam. Há muitos povos no Brasil e no mundo afora que ainda não ouviram falar em Jesus. Nós já O conhecemos, e podemos contar para eles. Realmente, não existe profissão mais satisfatória do que a de servir ao Senhor no campo missionário!

Bárbara Kern, missionária entre o Povo Pacaas Novos