Entrevista com o casal de Missionários Zenilson e Rita

Bom, a maioria dos membros da equipe entre os Baniwa começou o trabalho na comunidade Ambaúba, já Ritinha e eu não, começamos trabalhando entre os kuripako.

CT – Zenilson se apresente e resumidamente conte a decisão que tomou para servir a Deus.

Além das escrituras que são categóricas quanto a nossa responsabilidade de anunciarmos o Evangelho ao mundo, o Senhor usou o testemunho de dois missionários, Ronaldo Lima e Marlene Morais para despertar em mim o desejo de servi-Lo na obra missionária indígena. Surpreendentemente, o Senhor usou algo talvez incomum, quando uma rede televisiva apresentou em cadeia nacional uma acusação envolvendo o trabalho Zo’e, focalizando um casal estrangeiro que fazia parte da equipe missionária entre aquele povo; quando os vi, falei para Deus: Senhor, os teus servos, além de deixarem o seu país, precisaram aprender português antes de chegar à aldeia, e eu poderia alcançar esses povos sem sair do meu país. Se o Senhor me quer nesta obra, eu quero te servir!

CT – Houve necessidade de junção das duas equipes Baniwa e Kuripako, como tem sido esta experiência?

Bom, a maioria dos membros da equipe entre os Baniwa começou o trabalho na comunidade Ambaúba, já Ritinha e eu não, começamos trabalhando entre os kuripako.  Assim, esta junção trouxe alguns desafios para nós, como ter que aprender o idioma baniwa que é um pouco distinto do idioma kuripako, mas semelhante. Com isso, houve aceleração da tradução, pois o que tínhamos traduzido em kuripako, agora só precisa ser adaptado para o baniwa.

CT – Zenilson, conte-nos um pouco do ministério que você realiza.

Além do ensino bíblico sistemático entre o povo, tenho trabalhado na tradução bíblica e no preparo de lições para evangelização e discipulado que abrangem Gênesis até os evangelhos. Tendo feito isto em kuripako, fiz também as adaptações para a língua baniwa; e paralelo, tento ajudar outros tradutores, checando o conteúdo e nível de compreensão dos livros bíblicos que eles traduzem para as etnias com as quais trabalham. No momento, estou formatando as lições e os textos bíblicos que acompanham este material, para serem publicados. O ensino apenas oral pode morrer com uma geração, mas o que deixamos escrito perdura por muito tempo, além de evitar as distorções que normalmente acontecem quando tudo é feito apenas oralmente. Por isso, hoje mais do que nunca, tenho investido maior tempo em traduzir o máximo da palavra de Deus para ser entregue nas mãos do povo.

CT- Rita, fale-nos como é seu dia a dia na tribo.

O nosso dia a dia na comunidade é bastante imprevisto, podemos estabelecer horários, mas dependendo dos eventos culturais que ocorrem, visitas na nossa casa ou programação feita pelo povo, tudo pode mudar.  Às vezes os kuripakos que moram rio acima, quando estão indo para a cidade ou voltando para sua comunidade, param em Ambaúba para nos visitar e geralmente eu preparo algo para comerem. Para a nossa alimentação podemos trazer quase tudo da cidade; sempre que há oportunidade nossos colegas da base enviam frutas, legumes e carne. Eu preparo conservas de carne ou frango, que podem durar até um ano; o pão é feito em casa também. Apreciamos muito os alimentos que fazem parte da dieta do baniwas, como o peixe, beiju e farinha. Atualmente o meu ministério tem sido apoiar o trabalho do meu esposo e cumprir o meu papel de mãe, pois ainda não falo o idioma baniwa. Procuro aproveitar as oportunidades para estar com as mulheres da aldeia, aprendendo com elas e participando das atividades desenvolvidas pela comunidade. Nossa filha, Elise, está com dois anos e dez meses e estamos esperando a chegada do Mateus, prevista para 05 de dezembro. Para mim, o maior desafio é o aprendizado da língua, essencial para a transmissão do evangelho;

CT- Em que ponto está a tradução e a contextualização da Palavra de Deus nos idiomas kuripako e baniwa?

Em kuripako e em baniwa temos o Novo Testamento completo traduzidos por Sophia Müller e Henry Lowen respectivamente. Do Velho Testamento temos boa parte de Gênesis, o livro de Jonas, 23 salmos incluindo o salmo 119, e outras porções que já foram aprovadas para publicação por nossa consultora Christa Groth.

CT- Zenilson, conte uma experiência que marcou sua vida ao ensinar a Palavra de Deus?

Terminado todo o ensino bíblico cronológico na aldeia Jerusalém, uma senhora kuripako chamada Ana me procurou aos prantos, e me disse: “Ninguém daqui sabia de como eu me sentia, sempre me vi como a pior pecadora. E se ontem eu tivesse morrido, eu sabia que estaria indo para o inferno. Mas hoje, depois de ouvir que Cristo pagou por completo os meus pecados, por sua morte na Cruz, tenho certeza que possuo uma casa lá no céu. Antes até eu cantava a música em nossa língua que diz: ‘Noopana matsiadali norhoentsa eeno likolhe…’ (Eu tenho uma casa maravilhosa lá no céu). Mas era mentira, só agora  eu, de fato, tenho essa casa lá no céu, porque Jesus me salvou.” Esse testemunho me impactou tanto, que pensei: Sim, se fosse só por essa senhora, tudo já teria valido a pena os anos gastos no estudo da língua e cultura, horas sem fim traduzindo a Bíblia, as viagens cansativas de canoa e barco, viver exposto constantemente aos insetos próprios da região Amazônica. Sim, há júbilos no céu e no coração daqueles que servem ao Senhor por uma alma que se volta para Deus.

CT- Quais projetos sociais realizam e qual a contribuição deles para a comunidade?

A equipe missionária em Ambaúba auxilia na escola da comunidade, lecionando algumas matérias, dando aulas de reforço para os alunos da alfabetização, oferecendo cursos como confecção de rede de pesca, orientações básicas de computação, etc.

CT- Quais os desafios que a equipe tem para 2012 e como os leitores podem contribuir?

Na área de tradução, a conclusão do livro de Gênesis em kuripako e consequentemente a adaptação do mesmo para o Baniwa e continuidade do aprendizado da língua e cultura para todos os membros da equipe missionária.

Na área social, a comunidade sofre muito com problemas de verminose decorrente da água que utilizam para beber; como equipe, desejamos desenvolver um sistema de canalização de água potável para cada casa de Ambaúba. Pela realidade e condições da aldeia, achamos que uma roda d’água seria o meio mais eficaz para conseguirmos isso. Estamos orando pelo suprimento desse equipamento juntamente com todo o material necessário. Apreciamos as orações dos amigos e leitores da Revista Confins da Terra.