Por um verdadeiro dia do Índio

Nosso país é conhecido como uma terra de muitos povos, que abriga um sem número de culturas imigrantes, e é verdade. Há, sem dúvida, um aspecto interessante nesta realidade – a de que somos um povo de muitas faces, que tem uma índole tolerante para com as diferenças, ao menos na superfície da sociedade. Curiosamente, não somos um país que lida facilmente com estas diferenças, especialmente quando se desce aos níveis mais profundos das camadas culturais, onde se encontram os preconceitos e o etnocentrismo, que em nosso caso apenas parece não existir.

Dentre os muitos exemplos de diversidade cultural existentes no Brasil, cito especialmente as culturas chamadas indígenas, de centenas de povos ancestrais que ainda povoam nossas terras, lutando como nunca pelo reconhecimento de suas identidades e pela posse de suas próprias vidas. A história não é muito bonita quando se trata da relação daqueles formadores iniciais da nossa nação com os povos que aqui se encontravam. Uma história triste de dominação, roubo, morte, perseguição e sofrimento.

Mas esta não é a história do nosso pais e do seu desenvolvimento, senão a história do mundo e da humanidade. Por esta mesma razão, em muitos lugares do mundo hoje existem movimentos tentando resgatar a dignidade e os direitos destes povos ancestrais sobre suas vidas, culturas, terras e tudo mais que supostamente pode ser resgatado após séculos de perda.

Encurtando um pouco a história, foi através deste caminho que chegamos ao que hoje chamamos de “Dia do Índio”, uma tentativa política de valorizar e de “pagar” por todos os danos e males que foram causados a estas populações. Muito se tem conseguido em termos políticos, mesmo em meio a muitas discussões e inimizades. Uma face desta luta, porém, tem permanecido imersa em brumas de desrespeito histórico. No mais profundo daquelas camadas culturais a que me referi estão as crenças fundamentais, característica de todos, repito, todos os povos da terra.

Aqui se apresenta o maior de todos os campos de batalha… a fé! Comumente o homo sapiens tem sido também chamado pelos estudiosos da natureza humana de homo religiosus, já que não existe um homem sequer no planeta que não tenha fé e que não expresse esta fé através de convenções e comportamentos religiosos. Que todo homem tem direito a ter e manter sua fé é um fato inquestionável. Mas dizer que este mesmo homem não tem o direito de ouvir de outro tipo de fé e não tem o direito de, por vontade própria, escolher mudar de lugar sua confiança ou relacionamento com o mundo sobrenatural, é torcer de forma arrogante e prepotente o próprio direito em questão.

Pois bem, mais um “Dia do Índio” se aproxima, e mais uma vez muito se falará sobre o direito indígena de ser, de ir e vir, de estar, e até de CRER. Mas de forma totalmente incoerente continua-se dizendo que aos povos indígenas não é permitido sequer ouvir e muito menos crer no Evangelho, na verdadeira mensagem de amor e de resgate que qualquer pessoa poderia experimentar. Não apenas um resgate de antigas culturas, nem de línguas perdidas, nem de terras ocupadas, mas do resgate da liberdade, da paz e da vida perdida, conforme uma história também ancestral que une a todos nós, vermelhos, brancos, negros, amarelos, azuis ou qualquer outra cor que se queira atribuir a alguém sob uma mesma perspectiva.

Jamais fez parte do Evangelho de Cristo a pretensão de impor a quem quer que fosse a fé cristã. Jamais foi parte da mensagem da cruz o uso da espada ou da lança. Jamais fez parte do querer de Deus que a vida e o resgate que ele oferece fossem mutuamente exclusivos com as culturas humanas, mas que fossem resgatados, aperfeiçoados, valorizados. Agora, quando mais uma vez nos aproximamos do dia em que comemoramos os nossos primeiros habitantes, em grande medida os nossos pais mais antigos, façamos ouvir as nossas vozes, de nós que conhecemos o verdadeiro Evangelho e o verdadeiro Cristo. Façamos ouvir nosso grito pela liberdade e pelo direito dos povos indígenas em nosso País de ouvir a mensagem de amor e graça e de crer nela, se assim o desejarem. Façamos nosso também o sonho de que nossos irmãos indígenas possam continuar sendo indígenas mesmo quando optam por crer de maneira diferente, do mesmo modo que todos os outros brasileiros continuam a ser brasileiros quando decidem continuar ou mudar a direção de suas vidas e de suas crenças. Que o Dia do Índio se transforme de uma mera comemoração de uma triste história e de um momento político para a promoção de alguns, num dia de verdadeiro resgate da liberdade de ser e de crer.

Carlos Alberto Carvalho