Renúncia por um sapo – Simone Botileiro

“…por muito menos que uma Leishmaniose, estamos desistindo de uma tão grande Obra – a de descrever Cristo, o Senhor, para gente como a gente que também vive nas matas, cercados por todos os perigos, mas principalmente o de perder suas vidas eternamente.”

 

     Estava no final do meu plantão quando chegou um paciente muito especial – vou chamá-lo de Cléber! Era um jovem biólogo, muito inteligente e que se expressava muito bem. Trabalhava na região Norte do Mato Grosso, Sul do Amazonas e também Tocantins. Ele estava com uma Leishmaniose na região dorsal há um ano, sem tratamento. Por quê?

     Cléber nos disse que não podia parar o que estava fazendo a fim de se tratar. “Mas, o que você estava fazendo?” Eu perguntei.

     Cléber estava na mata fechada correndo riscos todos os dias, por sete vezes ficou em situação de grande perigo com onças, sem falar das cobras, aranhas e outros bichos, porque queria cumprir sua missão – descrever um anfíbio transparente que só vive naquela região.

     Ao falar do anfíbio (sapo) quase chorava. Falava com tanta empolgação dos sapos cururus da vida, que todos nós do plantão ficamos quietos a ouvir-lhe. Ele disse: “Sem os sapos, a vida humana não existiria na Terra, pois eles, na cadeia alimentar, mantêm o equilíbrio, ou seja, cada sapo cururu come cerca de mil insetos por dia…”

     Cléber nem se importou com o que uma leishmaniose não tratada poderia lhe causar daqui há dez ou vinte anos indo para o seu nariz ou orelhas… mas, como disse, “ está envolvido nesse trabalho e alguém tem que se arriscar, alguém tem que ir lá e eu tenho esse prazer”.

     Cléber se dirigiu a enfermaria para fazer Pentamidina intramuscular para sua leishmaniose nas costas e eu, Dra. Simone, me dirigi a Deus. Fui alcançada por Ele com toda essa história. Saí do plantão lembrando que por muito menos que uma Leishmaniose, estamos desistindo de uma tão grande Obra – a de descrever Cristo, o Senhor, para gente como a gente que também vive nas matas, cercados por todos os perigos, mas principalmente o de perder suas vidas eternamente.

     Que Deus me empolgue novamente com Ele e Sua maravilhosa Obra. Que, como Deus, eu valorize o que é eterno, o que vale mais que o mundo inteiro. Que eu fale dEle como Cléber fala do sapo cururu!

 

Autora: Simone Botileiro